Outro dia no trabalho, um colega me disse:
-- Você é um cara de sorte!
Eu! Porque? Perguntei surpreso com aquela afirmação inesperada.
-- Você viu aquele ali? -- Disse apontando com a cabeça outro colega (com o qual ele não conversa. Eles não se falam há muito tempo, porquê não sei!) que acabara de desligar o telefone.
Não! O que aconteceu com ele?
-- Tava falando com o filho! Hoje é quinta feira, o dia dos pais foi no domingo, mas só hoje o filho ligou dizendo que não conseguiu ligar antes, isso porque eles moram na mesma cidade!
Ta, e onde é que entro nisso? Perguntei.
-- Pô! Tive na sua casa ano passado, no churrasco pra comemorar o doutorado do seu filho, Eu e minha mulher vimos como é o relacionamento dos seus filhos com você, mais que isso, vimos como é o relacionamento dos amigos deles com você!
Tudo bem que você estava comandando a churrasqueira e a gente sabe que é de lei tratar bem o churrasqueiro, mas eles não iam até você para encher seu copo de cerveja, isso quem fazia era seu filho e sua nora, por sinal, linda! Muito simpática e agradável, seu filho acertou na mosca! Depois é que fiquei sabendo que o churrasco era também para comemorar o noivado dos dois. Mas enfim, eles iam até você pra bater papo, eu mesmo não consegui conversar com você. Fiquei só observando, minha mulher que depois de tanto ver a garotada indo conversar com você ficou curiosa e foi te conhecer. Ela gostou demais da sua família. Comentou que se sentiu em casa, na sua casa. Por isso você é um cara de sorte, de ter os filhos que tem!
Agradeci o elogio, supondo que aquilo tinha sido um e continuei fazendo o que estava fazendo! Sou assim, de primeira eu concordo com tudo para não encompridar muito o papo, depois volto, se não concordar com o que foi dito ou se o que foi dito merecer retorno.
No caminho para casa, depois do trabalho, peguei-me pensando naquilo que o colega falou e lembrei-me do que um vizinho na minha terra, há muito tempo atrás certa vez me disse:
“Primeiro somos os protetores pois eles se consideram o centro do mundo. Para os pequenos o mundo gira em torno deles e quando algo sai errado correm para nossos braços buscando conforto. Depois passamos a ser o ídolo, o super-homem particular, capaz das mais elevadas façanhas, pra eles passamos a ser ”The best”. Por mais baixinho que a gente seja somos os maiores, o espelho no qual passam a mira-se.
Depois entram na escola, conhecem vários amiguinhos, que também falam dos seus super-homens, conhecem os professores que ensinam coisas que o papai nunca falou e eles se maravilham com isso. Aprendem que não são os únicos, que possuem limites, a dividir espaço, e passamos a ser simples mortais, pessoas normais, nada de super-homens, isso quando não passamos a ser apenas aquele que paga as contas, o chefe a quem obedecem, não por medo pois já não é mais o tempo disso, nem por admiração, pois dessa também já não há tanta, talvez apenas por um certo respeito.
Então vem os amigos. Aqueles... Que passam a ser do peito. Vem as namoradas, os namorados, e de repente nem o chefe somos mais, somos apenas os velhos, os coroas, aqueles que estão por fora, que não estão com nada, pois eles é que estão com tudo, que sabem tudo e tudo podem. De repente não somos nada, não somos ninguém.
Filhos ingratos! Depois de tudo que fizemos. De que valeram as noites mal dormidas ao lado do berço? E aquela vez no hospital, quem foi que ficou angustiado, segurando sua mão, limpando suas lágrimas, enquanto o médico lhe engessava a perna, quebrada devido a um tombo de bicicleta? Isso foi há tanto tempo que nem se lembra mais, se bobear nem se lembra que foi assim!”
Esse foi seu lamento certa vez, por sinal uma das ultimas vezes que nos falamos, depois desse dia não quis mais saber de conversar comigo.
Também! O que ele queria que eu dissesse senão que, se ele esperava ter a gratidão dos filhos infelizmente não merecia a gratidão de ninguém! Porque as pessoas nos são gratas por alguma ajuda que lhes prestamos, por algum favor, algo que fizemos. Podemos merecer a gratidão das pessoas mas jamais devemos esperar por ela, e nem devemos cobrar porque senão, o que fizemos não foi ajudar, não foi fazer um favor, fizemos um serviço pelo qual esperamos receber o pagamento.
Quando nos pedem um serviço, colocamos nosso preço, que a pessoa pode aceitar ou não. Mas nós também podemos nos recusar a fazer o serviço, podemos passá-lo a outros. Um favor, uma ajuda, também podemos nos recusar a fazer ou dar. Pode não ser muito certo recusar, pode ser até desumano negar ajuda ao próximo, mas podemos fazer isso. O que não podemos fazer é nos propor a ajudar, e depois, esperar por recompensa ou gratidão. Não estaríamos fazendo pelo próximo, estaríamos fazendo por nós mesmos e não mereceríamos gratidão.
Em se tratando dos filhos, não só fazemos por amor, mas por obrigação. Porque eles vieram ao mundo? Nós os colocamos aqui, programados para nascer ou meio sem querer, por descuido, sei lá! Nós os colocamos aqui, não pediram pra vir! Por isso eles são de nossa responsabilidade.
São nossos filhos! Isso também não quer dizer que sejam propriedade nossa. Nós lhes demos a vida, então devemos ensiná-los a viver, mas a vida deles é lógico, não a nossa.
Nós os colocamos no mundo e é para o mundo que devemos criá-los. Devemos educá-los e orientá-los para que possam um dia construir sozinhos suas próprias vidas, para que um dia possam enfrentar sozinhos o mundo que os espera, pois não estaremos por perto a vida toda.
Por mais que façamos por nossos filhos sempre é pouco e jamais devemos esperar recompensa ou gratidão, podemos merecer, mas jamais devemos esperar ou cobrar por ela, senão eles não foram nossos filhos, foram nossos clientes para quem colocamos um preço em tudo que fizemos!
Depois dessa ele nem quis escutar minha opinião à respeito do que poderia ter levado seus filhos a pensar e agir do modo que ele achava que eles pensavam e agiam. Na minha opinião ele achava que os filhos eram propriedade dele, que nunca iriam crescer, que iriam permanecer sempre crianças agarradas à barra da sua calça. Não os viu crescer e com isso nunca lhes indicou o caminho a seguir, simplesmente mandava-os seguir por determinado caminho e pronto.
Traçou planos para o futuro dos filhos como se fossem planos para si próprio. Não falava pra todo mundo que o filho faria odontologia porque o filho queria isso, mas porque achava que isso era bom para o filho, e porisso achava que era isso o que o filho deveria fazer.
Não educou os filhos de forma a terem vontade própria, criou-os para agirem conforme suas vontades. Criou os filhos esperando que eles lhe devessem obediência a vida toda, e a coisa não funciona assim, pois agir por obediência não é agir com liberdade.
Até determinada época eles o obedeciam mas longe de dizer que o respeitavam. Deve ter mimado e protegido demais seus filhos, não que não se deva fazer isso, mas devemos fazer na medida certa. Não devemos fazer de menos, mas tampouco devemos fazer de mais, acabando por não dar a eles a chance de aprender a se virar sozinhos, enfrentar obstáculos e superá-los, sozinhos, pois nem sempre e não pela vida toda, estamos por perto. Ele não notou que a única forma de estarmos sempre ao lado deles é em pensamento através dos ensinamentos que transmitimos.
Não notou que quando seus filhos nasceram, o mundo havia se modificado em no mínimo vinte anos desde o dia em que ele próprio nasceu. Não sacou que as mudanças que ocorrem no mundo implica em mudanças nas pessoas que nele vivem.
Não reparou que seu filho, o nenezinho que nasceu, era diferente do nenezinho que ele foi quando nasceu. Não reparou que seu filho de cinco anos era uma criança de cinco anos, diferente da que ele foi quando tinha cinco anos.
Não notou que o moleque de doze que seu filho era, era um moleque de doze, diferente daquele de doze que um dia ele foi.
Não reparou que o filho adolescente de dezesseis tinha perspectivas, necessidades de vida, vontades e sonhos, diferentes daqueles que ele teve quando adolescente de dezesseis. Não sacou que com vinte o filho era um homem totalmente diferente daquele de vinte que um dia ele foi.
Não sacou que a fase dos cinco, dos doze, dezesseis e dos vinte, para os filhos era única. Diferente apenas porque era novidade, porque estavam passando por elas pela primeira vez. Não notou que ele sim já havia passado por todas essas fases um dia e que as dos filhos estavam sendo diferentes das dele.
Simplesmente deixou o tempo passar, não reparou que a diferença entre ele e os filhos sempre foi a mesma desde o dia em que eles nasceram. Enquanto a cada dia eles cresciam, aprendiam, evoluíam e modificavam-se, ele simplesmente envelhecia.
Não sacou que quando a gente vai pescar nós procuramos a companhia de pescadores, quando vamos a um jogo de futebol vamos nos sentar junto com a torcida do time da gente, que as crianças de cinco procuram outras de cinco para brincar.
Não sacou que os moleques de doze procuram outros de doze para empinar papagaio, que o adolescente de dezesseis procura outro da mesma idade para curtir um rock, que o homem de vinte discute suas idéias com outro de vinte.
Não sacou que o normal então, era seus filhos nunca o procurar, que o normal é que eles nunca o teriam como amigo, pois sempre ele estava no mínimo, vinte anos distante. No jogo da vida ele sempre foi para os filhos a torcida adversária da qual a gente normalmente mantém distância.
No meu modo de entender ele não tinha do que reclamar, os filhos estavam agindo normalmente, ele é quem estava querendo algo anormal, ele é quem deveria ter agido diferente. Se ele queria ter os filhos ao seu lado como amigos ele deveria ter nascido de novo junto com eles, ter aprendido a viver novamente, ter sido de novo uma criança de cinco, um moleque de doze, novamente um adolescente de dezesseis e de novo um homem de vinte. Deveria ter tirado a camisa encardida e gasta pelo tempo do seu time de velho e vestido a camisa do time dos seus filhos. Com certeza ele teria virado o resultado do jogo, e com um pouquinho de paciência e vontade teria ganhado de goleada, e no final da vida seria lembrado por ter marcado inúmeros gols de placa.
Foi isso que eu fiz! Um pouco tarde reconheço, mas ainda em tempo! Quando saquei eu já havia perdido a fase dos cinco e estava perdendo a fase dos doze.
Tive que nascer de novo e aprender a viver, rapidinho! Tive que rever valores, conceitos e objetivos em função dos novos tempos, estipulei novos objetivos em função da vida deles. Coloquei-me a inteira disposição, deles. Suas prioridades tornaram-se as minhas.
Desci do meu pedestal de pai, de onde eu comandava a vida deles como um maestro a dirigir uma orquestra, de onde eu passava os sermões que eu achava que eles mereciam ouvir, de onde eu indicava o caminho que eles deveriam seguir.
Desci desse pedestal sacudi a poeira e fui me sentar ao lado deles no banquinho de amigo. Quando fiz isso a coisa toda mudou. Para muitos parecia que virou bagunça mas não é nada disso, apenas ficou mais alegre e divertido.
Minha casa não virou um circo, mas até hoje, me visto de palhaço, se preciso, para fazê-los rir. Quando uma me pediu pra levá-la a um show de rock eu disse: Eu vou, mas só se for pra descer lá pro meião junto com a garotada, pra ficar na arquibancada eu não vou não! Lá, a gente encontrou a thurminha dela tudo garotada da minha idade, na faixa dos dezesseis, dezenove.
O garoto me apareceu em casa de brinquinho, eu olhei, achei legal, e reclamei: E o meu? O meu quero de argolinha, com uma cruz pendurada! Ganhei um e passei a usar. Quando fiz isso muitos acharam ridículo, mas vou dizer o que é ridículo:
Cheguei com minha esposa na formatura da minha filha, usando brinquinho é claro, exigência dela, e do hall de entrada, do salão onde estava sendo realizada a formatura vejo a seguinte cena: Os pais, todos encostados nas paredes do salão, e a garotada toda junta, na maior zorra, no meio do salão.
Chegamos, entramos, e assim que a garotada vê minha filha corre ao encontro dela com o tradicional “oi Cá!”. Pois ela era muito querida pelos colegas e completam: “Oi, pai dá Cá!”.
Esse sou eu!
-- Pô tio, brinquinho massa!
-- Legal tio!
São os comentários de alguns garotos, que passam a fazer uma rodinha em torno da gente. Os outros pais? Sozinhos pelos cantos: Isso é ridículo!
Mais ridículo foi o que eu ouvi certo dia de uma das meninas da turminha da minha filha, uma, que alem de me adotar como pai não saia da minha casa, onde todos apareciam para fazer os trabalhos de escola, porque eram tratados com liberdade, respeito, eram tratados de igual pra igual, e porque eu participava das atividades deles, sentava no chão junto com eles, dava palpite, ajudava a compor música, apesar de não entender nada de música, enfim, eu chegava junto. Não me colocava na frente, mas também não ficava atrás.
Ela disse certa vez que sua expectativa para o futuro não era a de ficar rica, mas a de poder se formar e ter um emprego que lhe permitisse ter um carro, poder passear de vez em quando, e ter uma casa onde pudesse receber os amigos, do modo que ela via acontecendo na minha casa, pois na casa dela ela não podia levar um amigo sequer.
Ridículo são as crianças se envolverem com violência, promiscuidade, drogas, por nada. Porque no fundo, elas procuram essas coisas por quase nada. Elas normalmente procuram isso como fuga, em substituição àquilo que não tem em casa.
E é tão pouco os que eles querem. Apenas atenção, carinho, respeito, um pouco de alegria, liberdade, um pouco de responsabilidade, um colo onde possam chorar, um ombro para se apoiar, querem ser tratados como membros do time, não apenas como gandulas que só põem a mão na bola quando ela sai pela lateral, às vezes querem simplesmente uma orelha para escutá-los, não muito mais que isso!
No entanto muitas vezes o que eles recebem é: Anda filhinho papai ta com pressa! Agora não filho mamãe está atrasada! Depois filha agora não dá! Quando eu voltar a gente vê isso! Agora papai vai ler o jornal, depois! Espera um pouco, mamãe agora ta vendo novela! Vai brincar com seus carrinhos, vai... Agora não! Papai vai dormir um pouco, papai não dormiu a noite inteira. Assiste desenho, depois a gente brinca!
É assim que começa!
Não demora muito e então se ouve: É! Não tem mais tempo pra contar historinha, não tem tempo de ver meu desenhinho, não tem tempo pra isso, não tem tempo pra aquilo, não tem tempo pra nada, não tem tempo pra mim...
Ao ouvir isso é claro que você vai ficar com um nó na garganta! Vai ficar sem saber o que falar, e isso é natural afinal, falar o que? Não há nada que se possa falar! Ao ouvir isso presta atenção, presta muita atenção... Pois mais que um simples lamento isso que você ouviu foi um aviso. E vou te dar outro aviso: Isso logo pára e quando parar é porque eles já sabem que você está com pressa, é porque eles já sabem que você está atrasado, eles já sabem que você não tem tempo.
Quando você abrir os olhos, e isso normalmente ocorre quando você tem todo o tempo do mundo, talvez você não tenha mais a quem dar o seu tempo, porque provavelmente não precisem mais do seu tempo, provavelmente não queiram mais o seu tempo. Isso porque enquanto você não tinha tempo outros tiveram!
Os professores tiveram tempo, e ainda bem que eles tiveram. Os amigos na rua também tiveram tempo. E tomara que tenham sido bons amigos, pior se quem teve tempo foram os falsos amigos. Gozado, mas esses? São os que mais tem tempo!
Não quero assustar, mas hoje em dia a coisa piorou um pouquinho mais, temos a concorrência da televisão. A gente não tem tempo pra eles, eles vão assistir televisão! A gente não é capaz de tornar a vida deles interessante, eles vão assistir televisão. Isso é cômodo! Enquanto eles assistem televisão não nos dão trabalho.
Um dia alguém diz: Nossa que bonitinha! Com quem ela aprendeu isso?
Com a televisão!
Sinal que você não teve tempo pra ela, traduzindo: Você não teve a capacidade de ensinar nada, pior, foi relapso, deixou que a televisão ensinasse.
Pior que isso, é o que temos agora rondando nossos pequeninos: o amigo virtual, aquele que a gente não sabe o nome, pois o ‘nick’ que usam é apenas um apelido. Esse amigo não tem cara, e mais preocupante ainda, esse amigo não tem endereço, a gente não sabe onde encontrá-lo quando for preciso.
Aí você se pergunta quase chorando: O que foi que eu fiz de errado?
Eu respondo: Nada! Mas não estou me referindo ao fato de você não ter feito algo de errado, o que eu quis dizer com o “nada” é que você realmente não fez nada! O que deveria ser feito, deveria ser feito no tempo certo. Não deveria ser feito antes nem depois, mas no tempo certo, no devido tempo, ao longo do tempo.
Agora? O tempo passou, não dá mais tempo!
Ué, ué, ué! Não adianta chorar agora. Qualé, dá um tempo!
Isso sim é ridículo! Usar brinquinho quando saia com meus filhos não tinha nada de ridículo mesmo porque, era sendo assim que eles me entendiam, era assim que me fazia entender, eu não os esperei subir até mim, me antecipei e desci até eles, e a gente cresceu juntos. Eles olhavam para mim e não sentiam medo, sentiam-se seguros, olhavam pra mim e não enxergavam um pai apenas, sentiam um amigo.
Se o limite do possível é conseguir ser amigo dos filhos, acho que extrapolei esse limite, pois me dou ao luxo de ser inclusive amigo dos amigos deles. E isso não é simplesmente porque eu os trato bem quando aparecem na minha casa, isso é pouco, existe muito mais por trás disso, por trás disso tudo existe o dedo dos meus filhos.
Certo dia o garoto voltou de um curso de férias, que ele estava fazendo no IMPA, no Rio de Janeiro, e disse-me que ao final o curso ele, vários colegas e alguns professores foram a um barzinho tomar chopp a titulo de confraternização, pois o curso foi tão corrido que muitos não tiveram chance de se conhecer. Disse-me que foram ao tal barzinho lá pelas oito da noite e ficaram conversando, bebendo, até as duas da manhã. Quando resolveram ir embora um dos seus colegas vira pra ele e diz: ¾ Se o seu pai estivesse aqui a gente varava a noite tomando chopp e batendo papo!
Quem era o colega? Eu não sabia, nunca havia visto! Meu filho o conheceu durante esse curso. Por sinal esse amigo estava no churrasco que meu colega de trabalho falou, e apareceu em casa com o exemplar de um livro meu, feito artesanalmente pra ele a pedido do meu filho, naquela época do curso de verão.
Nisso ai teve ou não teve o dedo dele? O cara não me conhecia, como é que de repente eu fiz falta numa rodinha de amigos? Na mesa de uma rapaziada de vinte e poucos anos? A conclusão que cheguei para ter feito falta numa mesa de garotos é que alguém falou de mim para ele, e não deve ter falado mal, como também não deve ter falado pouco.
Outra coisa que pensei é que a frase que eu mais escutei durante a vida foi: ¾ O que você acha, pai? E o pai deles sempre achava alguma coisa, e quando não sabia o que achar não enrolava, dizia que não sabia e ajudava a procurar a resposta. Tudo bem que muitas vezes achava alguma coisa e eles faziam de maneira diferente. Sinal que tinham personalidade, sinal que eu também errava ou que eles iam correr o risco de fazer diferente, pois isso foi outra coisa que procurei ensinar: responsabilidade pelos seus atos.
Ao sentar no banquinho de amigo sempre procurei ter tempo pra eles. De vez em sempre a gente varava a madrugada conversando. Numa época foi o garoto, depois quando ele foi estudar fora, em Campinas, numa das melhores universidades do país, quando nossos papos ficaram restritos aos finais de semana em que ele vinha pra casa, chegou a vez da garota ter mais o meu tempo.
Muitos poderiam dizer com isso que sou um cara legal, mas não é isso. Tive um pouco de sorte sim, não nego, tive sorte por abrir meus olhos a tempo, a tempo de não perder meus filhos, a tempo deles não se perderem, a tempo de poder ganhar dois grandes amigos!
É companheiro... Quando eu nasci o cara lá de cima, o “Grande Cara”, deve ter olhado pra mim sim e dito: Esse é o cara! Mas não contei apenas com isso para ter os filhos que tenho, desculpa mas isso não é sorte não, eu fiz a minha parte!
Então me peguei pensando no porque, naquilo que me empurrou a fazer a minha parte. A conclusão que cheguei é que fui movido por algo que meu pai, o velho Leduino, me disse uma vez “Filho, a gente que é pobre só tem uma coisa a deixar para os filhos: Estudo!”.
Ele era sapateiro, dos bão, vamos deixar claro! Não consertava sapatos apenas, ele os fazia artesanalmente, era um artista!
Essa frase sempre martelou na minha cabeça até o dia que eu a entendi. Quando parei de pensar e comecei a agir.
Entendi que para educar bem meus filhos eu precisava primeiro conhecê-los.
A grande sacada nisso tudo foi entender que para conhecê-los eu só tinha uma coisa a fazer: Descer do meu pedestal de pai.
Foi o que eu fiz! Deu no que deu!
E conforme diz o povo: A voz do povo é a voz de Deus! E ela diz que nosso valor não está naquilo que temos mas sim naquilo que somos.
Ainda bem que é assim, pois o que tenho é apenas um uninho, ano 96, comprado o ano passado, a prazo diga-se de passagem, nada mais que isso!
Mas o que eu sou? Ah!Isso eu digo de boca cheia, mas primeiro vou dizer quem sou.
Sou o marido da Carmen! U’a mãe ma-ra-vi-lho-sa! Mulher excepcional! U’a amante de primeira...
Sou avô do Murilo e acabo de me tornar avô da Joana!.
Pai da Camila, mãe desses dois, um coração de criança, uma grande mulher, graduada em biologia pela UNICAMP, esposa do Marco Antonio, um filho que ganhei, oficial do exército brasileiro, formado pela AMAN – Academia Militar das Agulhas Negras.
Sogro da Kátia, jornalista, mestre em educação pela Universidade Federal Fluminense, e não que eu queira fazer pressão, mas assim que me der um netinho(a): será também uma filha! Até lá, só minha adorável nora!
Quem mais eu sou?
Vou falar baixinho pra não assustar a concorrência: sou pai do Leduino...
Graduado, mestre em matemática e doutor em matemática aplicada pela UNICAMP, atualmente professor da Universidade Federal Fluminense.
Falar mais alguma coisa?
Pra quê?
Só para encerrar: Não sou um cara de sorte não, sou um cara FELIZ!
Victor A. Maccoby
Benê, para os íntimos...
P.S.: Quando da atualização desse texto eu era só isso! Agora também sou avô da Sofia (olhar para ela é voltar no tempo, ela é o pai dela de brinquinho), uma bela menina, uma linda netinha que minha nora me deu...